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domingo, julho 01, 2007

The Portuguese dream

Esta semana saiu o relatório de progresso da Comissão do Livro Branco das Relações Laborais (o que, em si, já é um progresso pois temos uma Comissão que elabora um relatório apenas tendo feito 16 reuniões).
Não conheço nenhum membro da Comissão pelo que não duvido das boas intenções dos seus membros. Creio que o problema é bastante mais vasto do que uma questão de intenções.
Quando comecei a trabalhar havia nas empresas um Serviço de Pessoal. Pagava os ordenados e tratava de umas papeladas. Não era muito mas chegava. Depois transformaram-se em Recursos Humanos. Poderia pensar-se que seria uma evolução no sentido de valorizar o que uma empresa tem de mais importante: as pessoas. O nome em si não era muito feliz mas tem-se sempre a esperança que mudança signifique evolução para melhor. A seguir arranjaram especialistas, consultores, rácios, doutrina e passaram a tratar as pessoas como o nome indicava, ou seja, recursos.
Esta evolução tende a fazer-nos acreditar que os recursos são para serem optimizados e, como tal, não devem parar por doença ou por férias, devem funcionar o máximo de tempo possível quando a produção o exige e deixar de ser um custo quando as necessidades diminuem e, sobretudo, não se devem imiscuir na condução da empresa. Daí (mais a mais com a concorrência dos países de mão de obra barata) se ter criado um clima em que a empresa já não tem qualquer responsabilidade social e o único objectivo que persegue é o da maximização do lucro dos seus accionistas. Quer produza centrais nucleares, sapatos ou comida.
O relatório da Comissão vai neste sentido.
O problema é que o ser humano é um pouco mais complicado do que uma máquina. Todos conhecemos aquela história do consultor que propõe o despedimento de um tipo que passa a vida a olhar para o ar ao que o patrão responde que o tal tipo a ultima vez que teve uma ideia, fez ganhar milhões de dólares à empresa. E estava exactamente a olhar para o ar.
Algumas empresas por esse Mundo fora já começaram a perceber que os “recursos humanos” não são só mais um recurso e que o capital mais valioso da empresa é as pessoas que nela trabalham.
Há pouco tempo, visitei a fábrica da Volvo em Gotemburgo. Como em todas as fábricas de automóveis, a maior parte da produção é automatizada. Não sei que problemas laborais terão, no entanto, orgulhavam-se de haver o mesmo numero de mulheres que de homens na empresa, da cantina ser utilizada pelo operário e pelo director geral, de a fábrica ser limpa e ter um ambiente de trabalho agradável, de terem salários decentes, de o trabalho, mesmo num meio industrial, não ser violento e de as pessoas serem escutadas. Sofrendo de uma forte concorrência de quem não tem nenhuma destas preocupações, a Volvo tem algumas dificuldades económicas embora seja a empresa do grupo Ford que melhor resiste. Se calhar, é por causa das pessoas que lá trabalham.
Em Portugal, a generalidade da classe empresarial não pensa assim. A única coisa que aprenderam nos últimos anos é que o pessoal da empresa é um recurso que deve ser utilizado no limite das suas possibilidades físicas e ser remunerado tendo como referência o que haja de mais miserável no Mundo. Como quem dá pouco não tem o direito de exigir muito, os trabalhadores respondem com uma certa indiferença em relação aos resultados da empresa.
Reduzir o tempo de férias, aumentar os horários de trabalho, reduzir as pausas para almoço, pagar menos, despedir apenas com critério económico estará muito bem quando discutimos máquinas. Fazê-lo com pessoas, é participar no sonho do patrão português: ganhar tanto como os patrões americanos (mas sem os impostos e os constrangimentos legais) e pagar aos empregados salários chineses.

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:: enviado por U18 Team :: 7/01/2007 03:27:00 da tarde :: início ::
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