BRITEIROS: Chávez 1 – Oposição 1 <$BlogRSDUrl$>








sexta-feira, dezembro 07, 2007

Chávez 1 – Oposição 1

Não se pode dizer que alguém tenha perdido no referendo sobre a reforma da Constituição na Venezuela. Pelo menos, por enquanto.
Bem sei que o resultado foi de 51% para o “Não” e 49% para o “Sim” (cerca de 100.000 votos de diferença), mas... deixem-me explicar.
A derrota de Chávez não só não foi assim tão humilhante — embora tenha sido significativa e sobretudo simbólica — como serviu incontestavelmente como uma lição de humildade. Daqui para a frente, ele sabe que não pode fazer tudo aquilo que lhe der na real gana. Que vai ter que controlar melhor as suas piruetas e os seus ímpetos. É claro que, com esta reforma, ele queria ir demasiado depressa. Em apenas alguns meses, queria fazer na Venezuela uma mudança tão considerável como a passagem para o socialismo.
Só que, sociologicamente, as coisas não funcionam assim. Uma sociedade não se muda por decreto. Obedece a regras rígidas, que é necessário avaliar correctamente antes de avançar na cena política. E, no seu voluntarismo extremo, Hugo Chávez não o fez. Limitou-se a avançar, convencido de que todos os seus apoiantes iriam atrás dele... Mas muitos não foram.

Quanto à oposição, a lição a tirar é simplesmente a de que existe realmente uma democracia na Venezuela. Tanto mais que, ao reconhecer, sem ambiguidade, a derrota, foi o próprio Chávez quem lhes deu essa lição: está aqui a prova de que uma oposição que joga o jogo, pode muito bem ganhar democraticamente umas eleições. Ao mesmo tempo, ficou dissipada qualquer suspeita de fraude, anulada qualquer acusação de ditadura, ridicularizado qualquer ataque à parcialidade do Conselho Nacional Eleitoral.
Nesse sentido, quem mais precisa de provar que aceita maioritariamente e massivamente as regras da democracia não é Chávez, mas sim a oposição, que vai precisar de abafar no seu seio todas as suas tendências extremistas e todos os seus ímpetos golpistas. E isso não é assim tão evidente, à vista das conclusões triunfalistas face aos resultados, tão pouco amplos, do referendo. Conclusões tão excessivas, que quase nos fizeram crer que estávamos perante o princípio do fim de Chávez. Ou seja, também a oposição vai ter que dar mostras de mais humildade e “saber gerir a sua vitória”, como lhes disse, não sem uma pontinha de ironia, o próprio Chávez.

O que é que pode acontecer agora? Tudo, menos uma mudança substancial no governo do país. Chávez disse-o claramente: não vai renunciar ao seu projecto, a longo prazo. Mas vai ter que alcançá-lo sem o instrumento jurídico que lhe teria dado a reforma constitucional. Não vai recuar no que respeita aos princípios, mas vai ter que encontrar uma nova estratégia que tenha, dessa vez, mais em conta as realidades sociológicas do país. Muita gente deseja um Chávez menos virulento, menos impulsivo, menos embebido na sua pessoa, mais reflectido e mais atento às críticas dos amigos. Será isso possível?

Quanto à oposição, será que vai conseguir aceitar o jogo da democracia ou, pelo contrário, vai deixar-se arrastar de novo pelos seus demónios? Grande questão. Mas, infelizmente, a esperança de uma mudança profunda de atitude não é nada certa. Para começar, não é de estranhar que a oposição venha a ter um novo líder de peso: o general Raúl Isaías Baduel, antigo ministro da Defesa de Chávez, e próximo dele. Foi um dos inabaláveis defensores do “Não”, colaborando assim na vitória da oposição. Ei-lo pois no centro do tabuleiro político. Poderá tornar-se o perfeito cavalo de batalha para a oposição dura e para Washington, e não deixa de causar inquietação, dados os laços estreitos que continua a manter com uma parte não desprezável das forças armadas.
E aí, um triste precedente vem-nos à memória: um certo Augusto Pinochet era, também ele, chefe do estado-maior e “próximo” de Salvador Allende...


:: enviado por JAM :: 12/07/2007 12:25:00 da manhã :: início ::
2 comentário(s):
  • Referendo venezuelano: Uma autópsia e os seus resultados
    por James Petras
    As reformas constitucionais da Venezuela que apoiavam o projecto socialista do Presidente Chavez foram derrotadas pela mais estreita das margens: 1,4% de 9 milhões de votos. O resultado contudo foi severamente comprometido pelo facto de 45% do eleitorado ter-se abstido, o que significa que apenas 28% do mesmo votou contra as mudanças progressistas propostas pelo Presidente Chavez. Apesar de a votação ter sido um golpe na tentativa da Venezuela de desembaraçar-se da dependência do petróleo e do controle capitalista sobre os estratégicos sectores financeiro e produtivo, ela não altera a maioria de 80% no parlamento nem enfraquece as prerrogativas do ramo executivo. No entanto, a vitória marginal da direita proporciona uma aparência de poder, influência e força nos seus esforços para descarrilar as reformas sócio-económicas do Presidente Chavez e remover o seu governo e/ou forçá-lo a reconciliar-se com a velha elite dos intermediários do poder.

    Já começaram as deliberações internas e os debates no interior do movimento chavista e entre os diferentes grupos de oposição. Um facto que certamente será sujeito a debate é porque mais de 3 milhões de eleitores que deram os seus votos a Chavez na eleição de 2006 (onde ele ganhou 63% dos votos) não votou no referendo. A direita apenas aumentou os seus resultados em 300 mil votos, ainda que assumindo que estes votos foram de votantes decepcionados com Chavez e não de activistas de extrema direita da classe média o que deixa mais de 2,7 milhões de votantes por Chavez que se abstiveram.

    Diagnóstico da derrota

    Sempre que a questão de uma transformação socialista é colocada no topo de uma agenda governamental, tal como fez Chavez nestas mudanças constitucionais, todas as forças da reacção de extrema direita e os seus seguidores ('progressistas') da classe média unem forças e esquecem a sua rivalidade partidária habitual. Os apoiantes e organizadores populares de Chavez enfrentavam um vasto conjunto de adversários cada um dos quais com poderosas alavancas de poder. Eles incluíam: 1) numerosas agências do governo americano (CIA, AID, NED e os responsáveis políticos da embaixada), suas 'activos' subcontratados (ONGs, recrutamento de estudantes e programas de doutrinação, editores de jornais e conselheiros de mass media), as multinacionais estado-unidenses e a Câmara de Comércio (a pagar por anúncios anti-referendo, propaganda e acção de rua); 2) as principais associações de negócios venezuelanas: FEDECAMARAS, Câmaras de Comércio e grossistas/retalhistas que despejaram milhões de dólares na campanha, encorajaram a fuga de capitais e promoveram o açambarcamento, fazendo com a actividade de mercado negro provocasse escassez de produtos alimentares básicos em mercados populares; 3) mais de 90% dos media privados empenharam-se numa incessante e virulenta campanha de propaganda constituída pelas mais grosseiras mentiras – incluindo estórias de que o governo tomaria crianças das suas famílias e confiná-las-ia em escolas controladas pelo Estado (os mass media dos EUA repetiram as mais escandalosas e viciosas mentiras – sem quaisquer excepções); 4) A totalidade da hierarquia católica, desde os cardeais até os párocos locais utilizaram as suas belas plataforma e homilias para propagandear contra as reformas constitucionais – ainda mais importante: vários bispos transformaram as suas igrejas em centros organizadores para a extrema direita muito violenta, o que resultou, num caso, na morte de um trabalhador petrolífero pro-Chavez que ignorou as suas barricadas de rua. Os líderes deste quarteto da contra-reforma foram capazes de comprar e atrair pequenos sectores da ala 'liberal' da delegação de Chavez no Congresso e ainda um par de governadores e presidentes de municipalidades, bem como vários ex-esquerdistas (alguns dos quais estiveram comprometidos em guerrilhas 40 anos atrás), ex-maoistas do grupo 'Bandeira Vermelha' e vários líderes sindicais e seitas trotzquistas. Um número substancial de académicos social-democratas (Edgar Lander, Heinz Dietrich) encontraram desculpas reles para opor-se às reformas igualitárias, proporcionando um brilho intelectual à raivosa propaganda da elite acerca das tendências 'ditatoriais' ou 'bonapartistas' de Chavez.

    Esta coligação disparatada encabeçada pela elite venezuelana e pelo governo dos EUA confiou basicamente em martelar a mesma mensagem geral: A emenda da reeleição, o poder de suspender temporariamente certas medidas constitucionais em tempos de emergência nacional (como o golpe militar e os lockouts de 2002 e 2003), a nomeação executiva de administradores regionais e a transição para o socialismo democrático eram parte de uma conspiração para impor o 'comunismo cubano'. Propagandistas da extrema-direita e liberais tornaram a reforma da reeleição ilimitada (uma prática parlamentar por todo o mundo) numa 'captura do poder' por um tirano 'autoritário/totalitário/faminto de poder" de acordo com todos os media privados venezuelanos e os seus congéneres americanos da CBC, NBC, ABC, NPR, New York e Los Angeles Times, Washington Post. A emenda concedendo os poderes de emergência ao Presidente foi des-contextualizada da realidade do golpe militar-civil apoiado pelos EUA e do lockout de 2002-2003, do recrutamento e infiltração de grande quantidade de esquadrões da morte paramilitares colombianos (2005), do sequestro de um cidadãos venezuelano-colombiano pela política secreta colombiana (2004) no centro de Caracas e de apelos abertos a um golpe militar pelo ex-ministro da Defesa Baduel.

    Cada sector da coligação de contra-reforma conduzida pela extrema direita focou grupos diversos e sobrepostos com diferentes apelos. Os EUA focaram o recrutamento e treinamento de estudantes para combates de rua, canalizando centenas de milhares de dólares através da AID e da NED para treinamento em 'organização da sociedade civil' e 'resolução de conflitos' (um toque de humor negro?) no mesmo estilo das experiências jugoslava/ucraniana/georgiana. Os EUA também disseminaram fundos entre os seus clientes de sempre – a quase defunta confederação sindical 'social democrata' – a CTV, os mass media e outros aliados da elite. A FEDECAMARA focou o sector das pequenas e médias empresas, profissionais bem pagos e consumidores da classe média. Os estudantes da extrema direita foram os detonadores da violência de rua e confrontaram estudantes de esquerda dentro e fora dos campuses. Os mass media e a Igreja Católica empenharam-se em mercadejar o medo para a massa da sua audiência. Os académicos social-democratas pregaram o 'NÃO' ou abstenção aos seus colegas progressistas e estudantes de esquerda. Os trotsquistas dividiram sectores sindicais com a sua palração acerca "Chavez, o Bonapartista" e as suas inclinações 'capitalistas' e 'imperialistas', incitaram estudantes treinados pelos EUA e partilharam a plataforma 'NÃO' com os patrões do sindicato CTV financiado pela CIA. Tais foram as não santas alianças na corrida ao voto.

    No período pós-eleitoral esta instável coligação exibiu diferenças internas. O centro direita liderado pelo governador de Zulia, Rosales, clama por um novo encontro e diálogo com os ministros chavistas 'moderados'. A direita dura incorporada no ex-general Baduel (querido de sectores da pseudo-esquerda) exige pressionar a sua vantagem mais ainda até a remoção do presidente eleito e do Congresso porque, afirma ele, "eles ainda têm o poder para legislar reformas"! Assim são os nossos democratas! As seitas esquerdistas voltarão a citar os textos de Lenin e Trotsky (a rolarem nas suas sepulturas), a organizar greves por aumentos de salários... no novo contexto de ascensão do poder da extrema direita para o qual eles contribuíram.

    (…)

    Continue a ler este texto aqui:

    http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=4284&lg=en

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    De Anonymous Luis, em dezembro 07, 2007 3:24 da manhã  
  • Dialéctica de uma derrota
    por Atilio Borón [*]
    Como explicar a derrota do Sim e até que ponto foi só uma derrota?

    Chavez enfrentou uma fenomenal coligação política e social que aglutinava todas as forças da velha ordem, carcomida até às entranhas mas com os seus agentes históricos a travarem uma batalha desesperada para salvá-la. A grande burguesia autóctone, os latifundiários, o capital financeiro, os dirigentes sindicais corruptos, a velha partidocracia, a hierarquia da Igreja Católica, a embaixada norte-americana, obcecada em derrubá-lo, e, a coroar todo este fluxo de descarga, uma confabulação mediática nacional e internacional poucas vezes vista na história, a qual reunia nos seus ataques a Chavez os grandes expoentes da "imprensa livre" da Europa, Estados Unidos e América Latina. O líder bolivariano atraiu contra si todos os espantalhos sociais com os quais deve lidar qualquer governo digno na América Latina e combateu-os quase em solidão e de mãos limpas. O que unificou os conservadores não foi a cláusula da "reeleição permanente" e sim algo muito mais grave: a reforma concedia categoria constitucional ao projecto socialista em gestação, algo totalmente inaceitável. Apesar de tão descomunal disparidade, o resultado eleitoral foi praticamente um empate.

    Para muitos venezuelanos a eleição não era importante, o que explica os 44 por cento de abstenção. A grande maioria dos que não compareceram para votar te-lo-iam feito pelo Sim, o que revela a debilidade do trabalho de construção hegemónica e de conscientização ideológica dos bolivarianos no seio das classes populares. A redistribuição de bens e serviço é imprescindível, mas não necessariamente cria consciência política emancipadora. Por outro lado, alguns governadores e alcaides chavistas não se empenharam a fundo em favor de uma reforma constitucional que democratizaria, em prejuízo das suas atribuições, a organização política do Estado ao criar novas instituições do poder popular. Além disso, há que levar em conta que após nove anos de gestão qualquer governo sofre um desgaste ou deixa de suscitar o entusiasmo colectivo de antanho. A isto há que acrescentar, além disso, alguns erros cometidos na campanha eleitoral intermitente de um presidente que, pelo seu papel protagónico no cenário mundial, não dispõe de muito tempo para outra coisa.

    De qualquer modo, apesar da derrota, Chavez saiu-se muito bem. Suas credenciais democráticas fortaleceram-se notavelmente. A oposição chegou às eleições dizendo que jamais aceitaria um triunfo do Sim. Caso se verificassem, repudia-lo-iam por ser produto da fraude e poriam em andamento o "Plano B" da Operación Tenaza [1] . Os que se diziam democratas confessavam que só se comportariam como tais no caso de ganhar; senão, a sua resposta seria a sedição. Chavez, em contrapartida, deu-lhes um lição de republicanismo democrático a aceitar com fidalguia o veredicto das urnas. Imaginemos o que teria acontecido se por essa ínfima diferença houvessem triunfado o Sim. Os porta-vozes da "democracia" teriam incendiado a Venezuela. Apesar da sua derrota, a estatura moral de Chavez e a sua fidelidade aos valores da democracia converte em pigmeus os seus oportunistas adversários, que só respeitam o resultado das urnas quando estes os favorecem. E, de passagem, deixa numa posição insustentável os senadores brasileiros que, sob o pretexto da débil vocação democrática de Chavez, querem frustrar a entrada da Venezuela no Mercosul.
    04/Dezembro/2007
    [1] Operación Tenaza: A tradução para castelhano do relatório do sr. Michael Middleton Steere, da US Embassy, ao sr. Michael Hayden, Director Agencia Central de Inteligencia encontra-se em www.tribuna-popular.org.

    [*] Economista e sociólogo. Secretario general do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) até Agosto de 2006. Professor Titular de Teoria Política e Social da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

    O original encontra-se em http://www.defensahumanidad.cult.cu/columnista.php?item=8

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

    De Anonymous Luis, em dezembro 08, 2007 2:22 da tarde  
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