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quinta-feira, julho 24, 2008

Guarda, a cidade dos seis Fs

Farta, forte, fria, fiel, formosa e agora também fechada. Da Sé só o exterior se pode ver, o senhor "Francisco" está de férias e não há quem o substitua. Pelo menos não entram os portugueses e não entra mais ninguém. Segundo as senhoras que fechavam cuidadosamente a porta depois de cuidar dos altares, os ladrões até tinham arrancado as caixas de esmolas embutidas na pedra. O senhor padre quer a casa de Deus bem fechada e o Ministério da Cultura não existe.

O "cu" da Guarda, supostamente virado para Espanha é também representação eficaz da Guarda virada para os visitantes.



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:: enviado por RC :: 7/24/2008 08:50:00 a.m. :: 0 comentário(s) início ::

segunda-feira, novembro 19, 2007

Memória das putas censuradas

No Irão, foi bloqueado há dias o acesso ao YouTube por representar, na sábia opinião dos ayatolahs que governam o país, “uma ameaça contra a moral e os bons costumes”. Agora, os mesmos sábios decidiram proibir a circulação da tradução persa da Memoria de mis putas tristes de Gabriel García Marquez, uma novela inspirada n’A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata. Kawabata foi o primeiro japonês a ser laureado com o Prémio Nobel da Literatura, em 1968, e estranhamente suicidou-se quatro anos depois de ter recebido o distinto galardão.
A Casa das Belas Adormecidas é uma singular e exclusiva pousada, situada nos arredores de Tóquio, onde acorrem assiduamente alguns anciãos endinheirados para “desfrutar” ou “sofrer” da companhia de jovens virgens que permanecem a seu lado durante toda a noite, nuas e drogadas. O regulamento da casa é implacável: os velhos não só não podem ter relações sexuais com as jovens como nem sequer lhes podem tocar. Em contrapartida, podem sonhar e reviver as experiências amorosas e sexuais das suas vidas, afastando, ao mesmo tempo, o temor de terem que expor os seus corpos decadentes.
A Memoria de mis putas tristes de García Márquez estava para ser distribuída pela editorial Nilufar, quando chegou a fulminante ordem dos ayatolahs: Proíba-se!...
A novela, publicada em 2004, é uma história de amor: a história de um jornalista que, chegado à idade de 90 anos, oferece a si mesmo de presente uma jovem de 14 anos que conhecera numa casa de putas.

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:: enviado por JAM :: 11/19/2007 11:00:00 a.m. :: 0 comentário(s) início ::

quinta-feira, outubro 11, 2007

O prémio para a contista épica da experiência feminina

A onze dias do seu 88° aniversário, a melhor prenda que podiam dar a Doris Lessing era... o prémio Nobel da Literatura de 2007, que recompensa a contista épica da experiência feminina que, com obstinação, ardor e uma força visionária, esquadrinha uma civilização dividida. Quanto à própria, define-se a si mesma como uma escritora... simplesmente.
No entanto, as suas tomadas de posição valeram-lhe a designação de persona non grata na África do Sul e depois no Zimbabué, por ter patenteado o seu ódio à ditadura directamente ao presidente Robert Mugabe.
Doris Lessing foi militante do Partido Comunista inglês — sim, sim, existe mesmo — no princípio dos anos 50. Diz ela que, nessa altura, “eram os únicos a encarar sem medo a questão da dominação dos brancos em África e as desigualdades na sociedade inglesa”.
Doris Lessing nunca se travestiu na sua escrita, nunca rejeitou a sua condição de mulher na observação da realidade. E, acima de tudo, Doris Lessing nunca transigiu com a estupidez humana. Aos jornalistas não hesita em declarar: “nunca fui capaz de me resignar a ter que responder a perguntas estúpidas sem antes deixar bem claro até que ponto as considero estúpidas”.

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:: enviado por JAM :: 10/11/2007 03:12:00 p.m. :: 0 comentário(s) início ::

terça-feira, maio 22, 2007

Centenário de RG

Ao festejar-se hoje o centenário do nascimento de Georges Remi, jornalista e desenhador belga, centenas de milhões de pessoas de todos os credos e raças, de todos os países do mundo, celebram Hergé, criador de algumas das personagens mais estranhas nascidas da imaginação humana no século XX.
Personagens imortais: Tintin, o jornalista; o cachorro Milu, seu imprescindível companheiro de aventuras; o neurótico, dipsómano e bondoso capitão Haddock; a infalível dupla de detectives Dupond e Dupont; o original cientista professor Tournesol; a imarcescível soprano Bianca Castafiore e muitos outros que compõem o universo maravilhoso que brotou do cérebro privilegiado de um artista talentoso até à genialidade e grande conhecedor do movimento da História.
Tintin nasceu do lápis de Hergé em 1929. Tudo é surpreendente nas suas aventuras, o que explica o seu êxito até hoje não interrompido: a perfeita composição cinematográfica dos desenhos e do enredo; a descrição dos detalhes, até ao mais insignificante, que fazem de cada sequência de quadradinhos uma obra de arte; a qualidade literária dos diálogos; a agilidade da história; o carácter definido de cada uma das personagens; a capacidade do autor em deixar o fio da história no final de cada página; o conhecimento enciclopédico e sobretudo político dos acontecimentos históricos do século XX, são o marco das aventuras do jovem jornalista e dos seus amigos, incluindo Milu, o mais humano dos cachorros e também o mais histriónico.
Nos últimos trinta anos multiplicaram-se por todo o lado os clubes de tintinólogos. Agora, Steven Spielberg e Peter Jackson acariciam o projecto de filmar uma trilogia centrada nos episódios de Tintin e Milu, em tributo ao génio de Hergé. O desafio não é pequeno porque a personalidade dos seres que povoam o mundo de Tintin é tão forte, e as suas características físicas tão familiares, que exigirão, se forem interpretados por artistas reais, um esforço mais que superior de direcção e de representação. Parte da grandiosidade das personagens criadas por Hergé deve-se ao facto de elas serem inimitáveis.
A produção deverá começar ainda este ano, logo que os dois realizadores acabem as filmagens actuais (Indiana Jones 4 para Spielberg e a adaptação do romance “Uma vida interrompida: Memórias de um Anjo Assassinado”, de Alice Sebold, para Jackson). E eu diria mesmo mais: logo que as filmagens actuais acabem.

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:: enviado por JAM :: 5/22/2007 12:12:00 p.m. :: 0 comentário(s) início ::

segunda-feira, maio 07, 2007

Tunick despiu o México

Lembram-se de Spencer Tunick? O homem que, desde 1992, tem percorrido o mundo a criar composições fotográficas onde figuram centenas de voluntários, homens e mulheres, posando completamente nus em espaços urbanos. Falámos dele aqui, há dois anos, na altura em que passou pela Bélgica.
Tunick esteve ontem na Cidade do México, onde superou amplamente o recorde do número de pessoas que acederam a despir-se para a fotografia: cerca de 20.000 homens e mulheres, dispostos a formar parte da obra colectiva. O poder da convocatória de Tunick sobre os mexicanos — um povo tradicionalmente pudico — foi imenso. O maior problema foi ter que recusar uma grande parte dos voluntários, por excesso de afluência. O recorde anterior tinha sido obtido em 2003, em Barcelona, onde tinha conseguido fazer despir 7.000 pessoas. Também em 2003, Tunick esteve em Portugal, onde não consegiu reunir mais do que 300 voluntários nus.
A praça do Zócalo, local emblemático da História do México, com 240 por 220 metros — a maior da América e a terceira mais ampla do mundo depois de Tianamen, em Pequim, e da Praça Vermelha, em Moscovo — converteu-se num mosaico de figuras humanas. Numa mistura de espectáculo e de belas artes, Tunick cumpriu largamente a sua promessa de despir o México.

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:: enviado por JAM :: 5/07/2007 09:26:00 p.m. :: 2 comentário(s) início ::

quinta-feira, março 01, 2007

Como falar sobre livros que não lemos?

Em Paris, a cidade que mais associada está à cultura verdadeiramente culta, acaba de sair um livro que, paradoxalmente, lança o descrédito sobre a importância da leitura. “Comment parler des livres que l’on n’a pas lus”, analisa não só o fenómeno de discutir sobre livros não lidos, mas, para além disso, a maravilha de poder fazê-lo com outras pessoas que, por sua vez, também fingem tê-los lido. O autor, Pierre Bayard, é professor de literatura, psicanalista e crítico literário.
Um livro conserva sempre um certo valor reverencial que nos abre as portas para um universo culto, sobretudo aqueles livros que, por consenso académico, são de leitura obrigatória e devem ser lidos do princípio ao fim. Entre nós, quem é que ousaria confessar que nunca leu Eça, Pessoa ou Saramago? Por isso, existem várias formas de não ler um livro. A mais eficaz é, sem dúvida, nunca o abrir. Mas, podemos também contentar-nos em folheá-lo, não acabar de o ler, ter só ouvido falar dele ou mesmo esquecê-lo completamente, para depois vir falar sobre ele perante uma audiência estupefacta.
Paul Valéry, Umberto Eco ou Montaigne são assim evocados pelo falacioso Bayard para serenar a culpabilidade daqueles que alguma vez cederam a essa tentação tão legítima. O livro está cheio de conselhos para afastar de vez qualquer interdição.
Estou certo que todos aqueles que, como eu, ainda não leram este livro, ... vão adorá-lo!

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:: enviado por JAM :: 3/01/2007 09:44:00 a.m. :: 0 comentário(s) início ::